Perspektive entrevista PLP sobre a luta na Autoeuropa

16/2/2018

 

Transcrevemos a versão em português da entrevista da revista alemã Perspektive à PLP, a propósito da luta das trabalhadoras e trabalhadores da Autoeuropa.

 

 

 

A disputa nas fábricas da Volkswagen dura desde há algum tempo. Podem explicar-nos sumariamente o conflito?

 

Desde que iniciou a laboração, em 1991, a fábrica da Volkswagen de Palmela, não tem sido palco de lutas laborais. A administração gozou, durante longos anos, de uma relação de grande proximidade com a direcção da comissão de trabalhadores, que, merecendo os elogios do patronato e seus representantes.

 

Implementaram uma política à medida da cogestão a que as empresas alemãs estão habituadas e que permite, através de prémios de produção e de outras “migalhas”, manter os trabalhadores a produzir de acordo com as flutuações de mercado, recorrendo-se, nomeadamente, a mão de obra precária.

 

A ampla subsidiação estatal de que a empresa tem gozado, terá também tido um papel importante na manutenção da “paz social”.

 

Em meados do ano passado, no entanto, a comissão de trabalhadores, que entretanto se demitiu e foi substituída por outra direcção, viu ser chumbado pelos trabalhadores um pré-acordo que negociou com a administração, e que, para fazer face aos prejuízos causados pelo mediático escândalo diesel gate e, à produção do modelo T-Roc, procurava impor a obrigatoriedade do trabalho aos fins-de-semana e a laboração contínua.

A 30 de agosto foi realizada uma greve contra a imposição do novo horário e a obrigatoriedade do trabalho ao fim-de-semana. Esta greve, convocada por um sindicato ligado à central sindical CGTP, contou com grande adesão das trabalhadoras e trabalhadores.

 

Rejeitado o pré-acordo, a comissão de trabalhadores demissionária convocou a eleição de novos representantes. Desta eleição saiu uma nova comissão, constituída por membros do sindicato ligado à central sindical oportunista CGTP, e por um grupo de operários sem afiliações político-partidárias conhecidas.

 

Desde outubro de 2017, tanto CT como sindicatos, têm vindo a recuar nas suas posições, deixando de parte o cenário de novas formas de luta, negociando à porta fechada, com o governo e com a administração da VW, soluções que não acautelam os interesses de quem trabalha, e que passam essencialmente por tentar minorar os efeitos sociais das imposições da empresa, nomeadamente com uma proposta que passa pela subsidiação estatal do pagamento de creches para os filhos dos operários e operárias que iriam trabalhar ao fim-de-semana. Esta é uma tática oportunista e que grande parte dos trabalhadores têm vindo a repudiar.

 


Que soluções propõe a empresa e quais as posições dos trabalhadores?

 

A empresa quer assegurar a produção do novo modelo através da implementação do trabalho ao fim-de-semana, porque esta é a solução que melhor responde ao interesse da administração e dos acionistas: a maximização dos lucros, através da intensificação da exploração de quem trabalha.

 

Os trabalhadores, por seu turno, já propuseram alternativas, que passariam pela implementação de um quarto turno de laboração, o que implicaria a contratação de mais operários, mas permitiria salvaguardar o direito à família e ao descanso, de todas e todos.

 


Que papel têm desempenhado os sindicatos e a comissão de trabalhadores?

 

Os sindicatos e a nova CT assumiram, numa primeira fase, uma posição relativamente combativa, convocando uma greve e insistindo nas posições de salvaguarda dos interesses de quem trabalha.

 

No entanto, nos últimos meses, apesar de continuarem a usar o mesmo jargão panfletário, têm relativizado a situação e as reivindicações democraticamente expressas pelos trabalhadores, ignorando as propostas de luta aprovadas em plenário, e assumindo a posição “cautelosa” e conciliadora, fazendo coro com o governo, deixando cair a reivindicação principal – a salvaguarda do fim-de-semana como jornada de trabalho extraordinária – a troco de algumas “migalhas” compensatórias.

 


Foi aprovada uma greve para fevereiro. Foi autorizada? Que será de esperar em relação à participação dos trabalhadores?

 

A greve, apesar de aprovada em plenário pelos trabalhadores, não se realizou.

 

Os sindicatos e a CT não emitiram o pré-aviso, numa clara manifestação de desrespeito pela vontade expressa dos operários, alegando que esta forma de luta poderia prejudicar as negociações.

 

A PLP considera que a greve se deveria ter realizado com ou sem pré-aviso, já que os trabalhadores não podem fazer depender a luta pelos seus interesses, tanto do sindicalismo oportunista como da legalidade que abona em favor do patronato, nem têm, aliás, qualquer obrigação de respeitar quem por eles nutre manifesto desrespeito.

 

Será necessário que as trabalhadoras e trabalhadores mais empenhados e conscientes realizem, em coordenação com as organizações que assumam a tarefa de os apoiar, uma nova campanha de mobilização para a greve ou para quaisquer outras formas de luta, mais ou menos avançadas, que considerem adequadas, e de denúncia do conluio entre a administração da VW, o governo e o sindicalismo oportunista, que procuram impor soluções que respondem aos interesses do capital e não aos de quem trabalha.

 


A VW é vista como um dos empreendimentos mais importantes para a economia portuguesa. Como avaliam o impacto que poderá ter o conflito?

 

A Autoeuropa representa uma fatia muito considerável do produto interno bruto nacional, e das exportações do país. Há um conjunto de empresas portuguesas que produzem para a VW/Autoeuropa e a fábrica é um dos maiores empregadores da região a sul do rio Tejo. Por isso mesmo, a campanha que visa difamar as trabalhadoras e trabalhadores da Autoeuropa e, ao mesmo tempo, diabolizar os sindicatos, mesmo os mais “moderados” e oportunistas, envolvidos no conflito, tem sido de uma intensidade sem precedentes. Todos os comentadores, ao serviço do patronato, acusam os operários de falta de patriotismo, de serem aristocratas privilegiados, tendo-lhes para isso sido disponibilizado amplo espaço mediático, nas televisões, nos jornais, nas rádios, etc.

 

Uma eventual derrota das trabalhadoras e trabalhadores da Autoeuropa poderá abrir o precedente do trabalho obrigatório ao fim-de-semana, a toda a indústria nacional. No entanto, uma vitória do trabalho pode ser o catalizador de uma mobilização de outros sectores e de uma ruptura – cuja importância é de difícil previsão – da paz social, e intensificação da luta de classes, que poderia abrir o campo à elevação da consciência, que se encontra profundamente influenciada pelos germes da cultura burguesa e pequeno-burguesa, que, provocando a divisão, tem sido causa de derrotas sucessivas.

 


Não só os sindicatos, mas também outras organizações sociopolíticas, estão envolvidas na greve, como é o caso da PLP. Que papel desempenham, enquanto organização, na luta por melhores condições para os trabalhadores da Autoeuropa?

 

Para além dos sindicatos e da comissão de trabalhadores, alguns grupos de trabalhadores têm vindo a organizar-se e posicionar-se em relação ao conflito, sendo a sua actividade mais ou menos influenciada por organizações políticas, nomeadamente do campo extraparlamentar.

 

A PLP, por seu turno, tem mantido o contacto com os trabalhadores, no sentido de compreender os desenvolvimentos desta luta e poder agir em conformidade, disponibilizando os seus meios e desenvolvendo ações de agitação e propaganda.

 

Apoiaremos, na prática e na materialização de tarefas concretas, todas as formas de luta que os trabalhadores considerem necessárias para vencer este combate.

 

Esta é uma luta muito importante, e, por isso mesmo, tudo faremos para garantir que não será afogada em negociações de gabinete e manter-nos-emos concentrados na reivindicação central: o trabalho aos fins-de-semana é trabalho extra e deve ser pago como tal.

 

 

Entrevista original

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