Ao Comité de Direcção da Erakunde

 



 

 

 

 

 

 

 

Já faz tempo que, pela publicação da minha carta no diário Berria e na internet, vocês se puseram em contacto comigo para me comunicar que tinha desrespeitado três normas disciplinares da Erakunde:

1) Expressar publicamente a minha oposição à linha de toda a Esquerda Abertzale;

2) Apoiar e alimentar tentativas de cisão;

3) Violação das normas da Erakunde e da disciplina interna.


Foram-me pedidas explicações, e fizeram-me saber que a minha militância ficava suspensa até estas serem dadas. Informaram-me que esta decisão havia sido tomada com o conhecimento do EPPK (Colectivo de Presos Políticos Bascos) e dos presos que me acompanhavam, e por último foi-me pedido que não tornasse pública esta medida disciplinar. 

Como não podia deixar de ser, fiz-vos chegar as competentes explicações, solicitando que me fosse dada resposta sobre a minha suspensão cautelar. E quanto à questão de não o fazer público, fiz saber que no actual estado de coisas, essa decisão era apenas minha, e que actuaria em consciência com a minha coerência militante. 

Como não recebi resposta a esta Zuzendaritza Batzordea (directiva), decidi hoje fazer público o vosso comportamento para com a militância que dizem respeitar. Talvez agora já não interesse a ninguém o que se passou no MLNV (Movimento de Libertação Nacional Basco), e concretamente na Erakunde nos últimos anos, a forma como estão a actuar, respeitando apenas o sector reformista, e o que estão a fazer a parte da vossa militância de base. 

Euskadi ta Askatasuna, Organização Socialista e Revolucionária Basca para a Libertação Nacional, surgiu para libertar Euskal Herria, e mais concretamente o Povo Trabalhador Basco. Para isso definiu quatro objectivos da Revolução Basca: independência, socialismo, reunificação e re-euskaldunização. Tudo o resto, estratégia e táctica, formas de organização, linha política, tudo, são ferramentas para conseguir estes objectivos. Ou seja, que na organização Euskadi ta Askatasuna a disciplina está necessariamente ao serviço da Revolução Basca, e não ao contrário. É um elemento subordinado para conseguir a liberdade do Povo Trabalhador Basco. 

Isto foi sempre confirmado ao longo da história da nossa organização. Desde o princípio, os jovens abertzales revolucionários de EKIN não aceitaram a disciplina cega que lhes queria impor o PNV (Partido Nacionalista Basco), a qual era resultado duma linha política liquidacionista.

O mesmo aconteceu na época da V Assembleia, quando a Direcção Política que estava a actuar sob uma linha espanholista e reformista foi expulsa porque queria liquidar a Revolução Basca. O tempo e a práxis demonstraram claramente como era a linha política daquela Direcção Política e onde terminaram depois.

O mesmo fenómeno repetiu-se na altura da Sexta. Alguns militantes abertzales e socialistas revolucionários deram prioridade à Revolução Basca e a ela subordinaram a disciplina e a militância. Graças a eles voltou-se a derrotar o liquidacionismo espanholista e reformista. Isto porque tudo se subordina à manutenção duma estratégia adequada para conseguir a independência, o socialismo, a reunificação, a re-euskaldunização, e a disciplina só existe com base nesse pressuposto.

Mais tarde, na época da cisão dos Poli-Milis, era sabido que os Poli-Milis eram maioria na organização, e apesar de tudo, porque tinham essa concepção revolucionária da disciplina e da organização, os Milis continuaram com uma estratégia adequada. Outra vez a práxis voltou a demonstrar quem estava correcto e quem estava errado.

E é preciso recordar que os Poli-Milis tiveram mais duas cisões, entre os Berezis e a dos Milikis, e que em ambas, novamente, se aplicou a disciplina duma forma revolucionária, em todas elas se aplicou a disciplina ao serviço da Revolução Basca, contra todos os liquidacionismos e reformismos.  

E a história repete-se também nos dias de hoje. A nossa organização celebrou uma Assembleia nos anos 2007/2008, e 80% votou a favor duma estratégia abertzale revolucionária político-militar. Se não estou em erro, o processo da Assembleia terminou em março de 2009.

Nesse mesmo mês, a 16 de março de 2009, uma facção reformista, que vinham actuando na sombra, dá uma conferência de imprensa saltando por cima de todas as vias, canais, normas e disciplina. Reivindicaram uma "estratégia eficaz", deixando claro que o que a Erakunde havia decidido na sua Assembleia não era eficaz. Participaram nessa conferência de imprensa fraccionária, entre outros, Otegi, Rodriguez, Zabaleta, Erkizia, Kiroga, Moreno, Díez y Etxaide. Foi a apresentação pública da fracção reformista do Movimento de Libertação Nacional Basco.

A 14 de novembro deram a conferência de imprensa mais famosa, aceitando os princípios "Mitchel" em nome da Esquerda Abertzale, sem nenhum tipo de debate. Um autêntico golpe de estado. É irrelevante espantarmo-nos, lamentar, criticar e condenar a falta de disciplina e os truques baixos desses militantes liquidacionistas. De nada serve porque, como disse anteriormente, a disciplina está subordinada à estratégia. E desta forma, quando no MLNV aparecem claramente duas estratégias, automaticamente surgem também duas disciplinas.

O que aconteceu depois é sabido. Aqueles que não haviam respeitado a disciplina revolucionária começaram a pedir disciplina e unidade a todos, de forma altissonante e em todas as direcções. E uma tremenda confusão apoderou-se do MLNV, porquanto não se entendia em torno de quê e por quem, se pedia disciplina e unidade. Os reformistas, os liquidacionistas e os oportunistas souberam aproveitar essa confusão, não apenas para terminar com a luta armada, mas com a estratégia revolucionária, já que não se tratava apenas dum debate cego e estéril a favor e contra a luta armada. O problema era entre estratégia revolucionária e estratégia reformista. Em 2007/2008 muito poucos militantes perceberam o problema. Hoje somos mais os que o percebemos o problema, e que começamos a actuar em consequência.

Aqui chegados, creio ter explicado bem a minha atitude militante. Eu sempre aceitei a disciplina, dentro da estratégia abertzale, independentista e socialista revolucionária, no seio da organização Euskadi ta Askatasuna. E cumprindo essa disciplina, e com essa consciência militante, continuarei a agir como tenho feito até aqui. Não fui eu quem rompeu a disciplina, mas sim todos aqueles que engoliram a estratégia liquidacionista sem dizer nada. Esse é o busílis da questão.  

Nos anos 2009/2011 todas estas questões estavam muito confusas como consequência desta conspiração, e muitos não percebíamos o que se estava a passar na nossa organização em particular, e no MLNV em geral, mas estamos em 2017 e agora já não há desculpas. Agora as coisas são claras. Hoje existem duas estratégias, uma reformista e outra revolucionária. Uma liquidacionista, e outra que segue na esteira da V Assembleia. Uma subordinada ao PNV, e outra independentista, socialista, leal e coerente com a história da Erakunde. Por tudo isto, existem também duas disciplinas: uma reformista e outra revolucionária.

Eu, tal como vocês, já escolhi de que lado estou. A práxis revolucionária decidirá quem tem razão. Em qualquer caso, os últimos cinco anos deixaram claro quem está a favor daqueles que sempre foram os nossos objectivos e a nossa estratégia. E o Povo Trabalhador Basco já começa a dar-se conta disso.

Aproveito também para dizer, enquanto membro do EPPK, e em relação ao "debate interno" que aí se está a levar a cabo, tomei a decisão de não participar. Não aceito a sua legitimidade, uma vez que parte da mesma Direcção que, sem nenhum tipo de debate, nos obrigou a assinar o Acordo de Gernika. E também porque depois dum ano de pressão político-mediática, que termina com os presos e presas políticas bascas a assumir a via da legalidade (o salve-se quem puder), alguém acredita que este poderia ser um debate sério, nestas circunstâncias e neste contexto? Alguém acredita que é possível debater de maneira livre quando se nos dá a escolher entre a renúncia política e o ostracismo? Que os responsáveis da Esquerda Abertzale Oficial tenham feito isto com o colectivo de pessoas mais vulnerável e mais desprotegido, diz muito do que esta fracção representa. 

Dirão que ao não apoiar a vossa "estratégia", não tem sentido continuar a militar na Erakunde ou no EPPK, que me coloquei fora desses âmbitos. Não o vejo assim, não sou nenhum cindido nem aceito sair duma casa que também é minha. Façam um debate justo, onde se possam debater todas as possibilidades que existem na actual situação pós-luta armada. Argumentam que "a amnistia é irrealizável", mas ao invés já acham que a independência é possível (do socialismo já nem falam!). Há declarações que não se entendem. Façam um debate justo para que a militância possa decidir.

"Se a capacidade de desobedecer deu origem à história humana, a obediência poderia muito bem levar ao seu fim" (Erich Fromm)

Patxi Ruiz Romero – Preso político basco.

Originalmente publicado aqui.

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