Nota de Repúdio

28/8/2017

 

 

1- No dia 23 de Agosto a Presidência da UE, rotativamente desempenhada pelo Governo da Estónia, decidiu levar a cabo a evocação «com dignidade e imparcialidade» das vítimas «do nazismo e do estalinismo». Vistos sob uma mesma perspectiva, como vítimas, num e noutro caso, de ditos «regimes totalitários», nazismo e estalinismo recebem por este meio a mesma condenação, a redução a um estatuto igual, e no fundo a transformação da democracia burguesa não no regime sob o qual o capital explora e oprime os trabalhadores no essencial dos países do mundo, mas antes num regime equilibrado, quem sabe se do interesse comum de todas as classes, e talvez mesmo capaz de as harmonizar.

 

2 - Independentemente da discussão teórica e historiográfica sobre a construção do Estado socialista na URSS de Estaline, dos seus acertos e dos seus deméritos, a análise elementar dos factos permite constatar que a Rússia que o poder soviético recebe nos anos 20 é feudal, retardatária, obscurantista, e a que Estaline lega tem uma taxa maciça de escolarização, a segunda economia do mundo, o esmagamento do nazi-fascismo. O nazismo de Hitler fez o absoluto oposto: pegou numa das sociedades mais avançadas e livres da época, a Alemanha e Weimar, e não fez se não semear o caos e a guerra por todo o mundo, desencadear o genocídio de judeus, ciganos, homossexuais, e vários povos eslavos, aumentar ao absurdo a exploração dos trabalhadores alemães, e degradar dramaticamente as suas condições de vida. A comparação entre ambos, mesmo de uma perspectiva historiográfica estrita, seria sempre um erro clamoroso.

 

3 - Abstraída da análise historiográfica estrita e analisada no contexto real da luta de classes, o que esta tese procura é, no fundo, associar a ideologia comunista, e em concreto a violência exercida pela ditadura do proletariado contra a reacção, à repressão fascista sobre os trabalhadores. Ora, a natureza de classe da repressão que cada um destes regimes exerce é clara e é inequívoca. Tal como, e apesar das tentativas de disfarçar essa evidência, a relação da democracia burguesa com o fascismo, semelhante à relação de um pai com o seu filho. Da Ucrânia do Sector Direito aos EUA de Donald Trump, da França da Frente Nacional à MUD venezuelana, as cumplicidades entre o fascismo e a democracia burguesa são mais que muitas, no fundo mostrando que uma é a cenoura e a outra o chicote com que o patronato tenta «persuadir» os explorados a aceitar o seu estatuto de explorados. E contra as quais, como é evidente e também esses exemplos cada vez mais vão demonstrar ou estão demonstrando, a resistência dos trabalhadores é em absoluto impossível sem uma resposta na única linguagem que o patronato compreende. Resposta que, a história o demonstra, se torna cada vez mais dura à medida que, progredindo os trabalhadores, se torna encarniçada a luta de vida ou morte dos burgueses para não perderem o seu lugar como classe dominante.

 

4 - A PLP repudia, por isso, a comparação e a equiparação da violência de uma classe que se liberta com a violência de uma classe que procura aumentar a exploração que já exerce e esmagar as experiências de resistência e superação do capitalismo já existentes, e a despeito dos seus equívocos, como fez o nazismo. Não há condenação possível para quem usa a violência no sentido de quebrar as correntes que o prendem, e não há qualquer justificação para a existência de exploradores e explorados, e menos ainda para a imposição aos explorados, por meio de persuasão ou de força, que se contentem com o seu lugar.

 

5 - Não somos tontos, e é claro, quanto a nós, que esta manobra da UE visa garantir, preventivamente, que todas as denúncias do seu rumo crescentemente autoritário, fascizante, xenófobo, e securitário, embatem com a condenação simultânea do comunismo e deixam manietados os povos em luta, reduzidos à pobre defesa de um democratismo inconsequente. Não nos deixaremos algemar pela eurocracia. Quebraremos as suas correntes, junto com as da exploração capitalista, por mais esforços que ela leve a efeito para o impedir.

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