Sobre os números do PIB

17/6/2017

O alarido em torno dos números do PIB e do desemprego, recentemente divulgados, é uma demonstração do desarmamento crítico da esquerda, tão grande como quando ela fala «em nome do país». Tendo engolido com isco, anzol, linha e cana toda a conversa mole da burguesia para encerrar os seus críticos num discurso que, até terminologicamente, impede quem o faz de pôr em causa o modo de produção e as suas bárbaras relações de exploração e opressão, a esquerda acaba a desarmar o povo trabalhador, que lhe competia munir da capacidade de superar a hegemonia ideológica e desenvolver uma prática revolucionária, não lhe deixando ferramentas se não para uma inútil reivindicação moralista.

 

Vamos falar com clareza, e repetir os «arcaísmos» de que os partidos das classes intermédias tentam fugir como o diabo da cruz: em capitalismo, a riqueza é produzida pelo conjunto da sociedade, e apropriada por uma única classe social (a burguesia). Depois de arrebanhada toda a riqueza social, a burguesia devolve aos trabalhadores o que tenderá a ser o estritamente necessário à sua subsistência física, à reprodução da sua força de trabalho, a assegurar que, no dia seguinte, estão de volta ao McDonald’s para virar hamburgers, ao café à beira-rio para servir cerveja aos turistas, à obra onde farão mais um (e outro, e outro ainda) hotel para endinheirados da Europa central. O aumento da riqueza produzida, salvo se as organizações de trabalhadores ameaçarem comprometer a produção se não houver repartição de riqueza (através da greve, ou de que forma de luta for), nunca será outro, independentemente de quanto o PIB cresça ou deixe de crescer. À vista do que tem sido a quietude mansa dos sindicatos, o legalismo estreito dos partidos de esquerda, a paralisia do movimento social, o contentamento do essencial da militância de esquerda com a geringonça e o seu aumento salarial de 1,70€/dia obtido em negociações de cúpula nos corredores do parlamento burguês, estamos falados sobre o alcance que essa repartição de riqueza terá.

 

A euforia com o crescimento do PIB, irmã da euforia com a redução do desemprego (sem que se diga quantos novos empregos são via ETT, a recibo verde, a ganhar o salário mínimo, promovendo activamente a gentrificação das cidades e a expulsão dos seus moradores para fazer Disneylândias turísticas e especulação imobiliária), é, como se vê, sinal de uma concepção burguesa da economia, de uma confusão entre interesses da burguesia e interesses «do país» (essa entidade abstracta e supraclassista), e em geral de uma incapacidade absoluta para entender os problemas que se colocam aos trabalhadores e a sua solução. A esquerda reformista não tem apenas uma composição de classe onde estão sobre-representados sectores intermédios como a aristocracia laboral, uma cultura de trabalho político reformista e legalista, e um medo-pânico de parecer radical e despojada da honestidade, da competência, e do sentido de Estado que a respeitabilidade parlamentar lhe impõe. A esquerda reformista não tem sequer instrumentos teóricos para conseguir romper com isso, mesmo que quisesse muito. Dela, como mais uma vez se mostra com a sua efusiva celebração do aumento do PIB, não há nada que esperar.

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