Feminismo e Luta de Classes

9/5/2017

 

 

Num mundo onde as mulheres são sistematicamente oprimidas nas esferas económica, política, familiar, quotidiana e sexual, falar de luta de classes sem uma perspetiva feminista é, no mínimo perigoso e inconsequente. Como o é, de resto, postular uma luta revolucionária que não reconheça de forma interseccional que machismo, racismo, xenofobia, homofobia, transfobia, capacitismo e demais opressões caminham lado a lado com a opressão classista, somando e multiplicando a subalternidade das camadas oprimidas. No mesmo sentido, um feminismo sem perspetiva de classe, focado apenas nas necessidades e aspirações de um segmento minoritário de mulheres,revela uma cegueira quanto ao significado real do movimento, abandonando à sua sorte uma imensa maioria de mulheres pobres, não-brancas, proletárias, precárias... Note-se que esta necessidade de integração do pensamento classista no feminismo – ou vice-versa – não é apenas um postulado ético de defesa de uma luta mais global, alinhando as pautas de diversos movimentos. Não, o capitalismo é construído diretamente sobre a subalternização de determinados grupos sociais. Colocando as coisas de um modo simples, o modo de produção capitalista precisa da opressão económica, financeira e doméstica das mulheres, a qual sustenta habilmente através de um conjunto de mecanismos quotidianos interiorizados de violência física e simbólica. Não há, por isso, espaço para a verdadeira emancipação feminina no seio do capitalismo, tal como não há espaço para o derrube do capitalismo sem a libertação das mulheres. Simples? Não parece, se tivermos em conta a sistemática e recorrente incapacidade de reconciliação entre os interesses de classe e os interesses feministas. Atentemos nalguns aspetos que comprovam este diagnóstico:

 

Por um lado, a retórica da esquerda (e particularmente da esquerda associada à terceira internacional) tende a desvalorizar o movimento feminista, não por defender explicitamente o machismo, mas ao invisibilizar o feminismo, num misto de ingenuidade (como se ao propor genericamente a igualdade a igualdade de género emergisse naturalmente) com manutenção dos privilégios e oposição simbólica aos movimentos mais recentes com um discurso mais focado nas questões de género. Sintomas?

 

                - Ausência ou subalternização de temas feministas nos projetos, manifestos e práticas de luta, a par com uma ridicularização de alguns dos projetos encetados por outrem nesse sentido, por serem considerados irrisórios ou inoportunos. Adoção apenas parcial das pautas feministas, geralmente centrada na violência física e na desigualdade económica e dificuldade acrescida na discussão de certas questões como o trabalho sexual, o binarismo de género ou a transfobia.

 

                - Incapacidade de reconhecer o privilégio masculino e perpetuação da pratica machista quotidiana privada e publica. Desculpabilização do machismo estrutural interiorizado nos contextos considerados de esquerda.

 

                - Recusa na adoção de linguagem inclusiva ou neutra em termos de género ou adoção apenas parcial da mesma.

 

               - Silenciamento e invisibilidade das mulheres militantes. Adoção de práticas militantes que prejudicam a participação das mulheres, por exemplo através do ênfase em reuniões longas e fora de horas, ignorando a dupla jornada laboral das mulheres e os riscos acrescidos que estas incorrem na via publica.

 

                - Desrespeito pelo lugar de fala das mulheres nos contextos que lhes dizem respeito. Interpretação centrada no homem das táticas de luta e das retóricas feministas, ignorando a experiência e socialização das mulheres. Culpabilização da mulher pela violência de que é vítima.

 

                - Manutenção de papéis de género estereotipados, incorporando mais facilmente mulheres com características percepcionadas como masculinas e mantendo preconceitos sexistas: dupla penalização das mulheres percepcionadas com fracas, fúteis ou libertinas, a par com utilização de linguagem sexista, lesbofobica, transfobica, gordofobica, que descrimina as trabalhadoras do sexo, etc..

 

Por seu turno, o(s) feminismo(s) têm-se vindo a revelar incapazes de articular nas suas pautas os princípios da luta de classes, e na proliferação atual de coletivos feministas, a par com a incorporação de algumas reivindicações feministas em diversos movimentos sociais e nalguma esquerda mais ligada à quarta internacional, verificamos alguma tendência para uma abordagem parcial do feminismo, que ignora as questões estruturais classistas, não servindo, de forma alguma, todas as mulheres. Alguns exemplos:

 

                - Invisibilidade da luta de classes na retórica e na ação feminista. Dificuldade no reconhecimento da estreita ligação simbiótica entre o capitalismo e o machismo. Hierarquização das opressões centrada no machismo sem o enquadrar num contexto capitalista e burguês. Interpretação errada do princípio da sororidade, legitimando e valorando a ação de mulheres contra as classes oprimidas.

 

                     - Centramento nas pautas que mais interessam à mulher branca de classe média invisibilizando a dupla ou tripla opressão das demais. Celebração e foco nas conquistas que apenas se aplicam às camadas médias brancas sem a aplicação de uma perspetiva de classes que mostre quão parciais são os resultados obtidos.

 

                 - Utilização de formas de luta e expressão inacessíveis a uma maioria de mulheres, com silenciamento e exclusão de grupos particulares. Práticas quotidianas de ativismo acessíveis apenas a mulheres urbanas, de classe média, menos penalizadas pela dupla jornada laboral e negação do lugar de fala a mulheres com opressões especificas.Retórica discursiva altamente codificada e elitista que inviabiliza a participação alargada das massas. Pouca ênfase na formação das bases.

 

                - Opressão de determinados grupos de mulheres. Opressão sobre as mulheres mães, ignorando ou subalternizando as suas reivindicações especificas e a sua necessidade de espaços e tempos ajustados para a participação no movimento. Opressão sobre as mulheres trans e manutenção de uma perspetiva binária do género ou promoção ativa de uma perspetiva de negação do género,  incapaz de reconhecer diferentes posicionamentos identitários. Dificuldades na integração das trabalhadoras sexuais.Incapacidade de integração na luta antiracista e discursos vitimizadores ou penalizadores de determinados grupos sociais, com interpretações abusivas sobre o que é ser mulher em determinadas comunidades.

 

               - Manutenção de papéis e estereótipos de género fixos, e descriminação de mulheres em função da sua adesão a um determinado padrão social. Julgamentos em função do aspeto físico ou de opções de estilo de vida. 

 

                     - Culpabilização das mulheres vitimas de violência e confiança desmesurada nos mecanismos de intervenção da sociedade burguesa.

 

Perante este diagnóstico da situação geral, pesem embora alguns avanços feitos nesta área, consideramos urgente a recuperação de um feminismo com um perspetiva de classe, e propomos assim a construção coletiva de um movimento revolucionário feminista interseccional, enquadrado mas não subjugado na luta de classes, anticapitalista, antipatriarcal, que deve superar as contradições atrás apresentadas e avançar urgentemente de forma organizada contra o machismo estrutural que é apanágio da sociedade burguesa.

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