O Dogma Obreirista da Esquerda Tradicional

 

 

Os partidos comunistas que se reivindicam herdeiros da Terceira Internacional, continuam até hoje a defender que o papel de vanguarda da classe dos trabalhadores recai sobre o operariado industrial, ou seja, sobre os assalariados operários do sector secundário, o que implica que consequentemente essas organizações políticas tendem a concentrar os seus esforços de mobilização sindical e social nestas camadas. Se esta era uma conclusão sustentada na realidade do final do século XIX e início do século XX, em que o proletariado era uma jovem classe, produto de um capitalismo na sua fase ascensional e fortemente expansiva, onde a socialização do trabalho estava ainda essencialmente confinada ao trabalho produtivo – às fábricas e complexos industriais em que se concentravam trabalhadores em grande número – trabalhadores esses cujas condições de vida eram tremendamente precárias, hoje, cem anos volvidos sobre a revolução russa de 1917, em que o proletariado em aliança com o campesinato tomou o poder derrubando a ordem burguesa, a forma como as várias camadas da classe dos desapossados se arrumam na cadeia de produção e circulação do capital assume outros, diversos e complexos, formatos, muito embora a natureza das relações de produção próprias do capitalismo, ou seja, o antagonismo e a inconciliabilidade dos interesses das classes e o seu papel no modo de produção, se mantenha inalterada.

 

A globalização, que corresponde, entre outros fenómenos, à intensificação da divisão internacional do trabalho, alavancada pelo desenvolvimento do capitalismo nos países asiáticos no último quartel do século passado, assim como o aumento da produtividade nos países europeus e na América do norte, reduziu drasticamente o percentual de trabalhadores do sector secundário nos países ocidentais com economias mais avançadas. Quase ¾ dos trabalhadores dos países da União Europeia estão integrados no sector terciário, sendo que pouco mais de 20% da mão-de-obra é empregue na indústria. O panorama económico nacional não foge à regra europeia: 70% dos trabalhadores portugueses laboram no sector dos serviços. Áreas como a hotelaria e restauração, ligadas ao turismo, telecomunicações, serviços de call center, retalho, imobiliário, protecção e segurança, absorvem a maioria da mão-de-obra e destacam-se nos baixos salários e na subcontratação. Estes nichos, dominados pelo sector privado e a que são transversais a muito baixa taxa de sindicalização e a precariedade laboral generalizada, pautam-se pela quase total desorganização dos trabalhadores, que não contam com quaisquer estruturas representativas, deixados, portanto, à sua sorte, por uma esquerda que, ora os ignora porque estão fora do pacto social que ainda abrange os assalariados das camadas intermédias (sendo que a persecução dos seus interesses e anseios exigiria o rompimento com as políticas de conciliação com a burguesia, próprias do reformismo), ora porque se tratam de sectores não abrangidos pelas concepções obreiristas e desatualizadas de vanguarda da classe referidas no primeiro parágrafo.

 

Estas concepções resistem, no entanto, a uma análise da realidade atual à luz das ferramentas do marxismo? Para responder a esta questão é necessário dar réplica às seguintes interrogações:

 

- As condições de vida, objectivas, dos trabalhadores do sector terciário são tais que constituem um substrato sociológico favorável à elevação da sua consciência de classe?

 

- O facto de muitos destes trabalhadores desempenharem trabalho não produtivo (que não acrescenta valor mas antes se “alimenta” do valor gerado pelo trabalho produtivo) limita de alguma forma a eficácia das formas de luta económica?

 

Se no sector industrial nacional uma parte substancial da contratação de trabalhadores se faz ao abrigo de acordos de empresa que garantem, apesar das limitações impostas pelo sindicalismo amarelo e de conciliação de classes, vínculos laborais sólidos e alguma protecção laboral, sendo disto exemplos grandes empresas como a TAP e a Auto Europa, em que a média salarial é superior à média nacional do sector privado, já no sector terciário a regra é a contratação individual, os vínculos precários, desde contratos à semana até aos falsos recibos verdes, passando pelo trabalho clandestino, sendo que em qualquer call center, hipermercado e centro comercial, as condições laborais são, na esmagadora maioria, estas.

 

Apesar de os trabalhadores que desempenham funções no sector da banca e do crédito, do comércio em geral e do retalho, do marketing e vendas, de facto não contribuirem com geração de valor para o “bolo” social total, o seu trabalho gera mais-valia para os capitalistas que os empregam. Além disto, o processo de realização do capital, implica necessariamente o processo de circulação (para além do de produção), sendo que a paralização dos sectores não produtivos implica desde logo um corte na cadeia do capital, o que tem repercussões imediatas no lucro dos capitalistas integrados nessa cadeia. Ilustro com o seguinte exemplo fictício: Os trabalhadores das lojas de centro comercial franchizadas associadas à multinacional de vestuário Y&X, coordenam uma greve nacional de 4 dias, pelo aumento dos salários e pela contratação colectiva. No imediato sofrem os lucros dos burgueses proprietários das lojas franchizadas Y&X, mas também sofrem os lucros da própria multinacional, que se vê impedida de escoar a mercadoria para as lojas, já que as expectativas de vendas para os 4 dias, saem goradas devido à greve dos trabalhadores.

 

Podemos com isto concluir que os trabalhadores do sector terciário serão a vanguarda da classe? Certamente que não. Mas demonstramos que não existem quaisquer impedimentos objectivos a que o sejam. Assim sendo, não só não é justificada sob uma análise marxista da realidade actual, nacional, europeia e mesmo ocidental, a perspectiva obreirista de vanguarda que os partidos da esquerda tradicional, mais ou menos reformista, continuam a apresentar, como, tendo em conta o demonstrado, urge organizar os trabalhadores do sector terciário.

 

É certo que quem se propuser empreender esta tarefa se deparará com inúmeros problemas, cuja resolução exigirá a aplicação de novos métodos, que tenham em conta as especificidades do sector, mas não existem, no entanto, quaisquer razões tácticas ou estratégicas que justifiquem que as organizações da nossa classe não dediquem a este trabalho com todo o empenho e todos os meios ao seu dispor.

 

A análise de classe não pode assentar em dogmas, sob pena de retirar ou insistir em conclusões teóricas que não permitem desenvolver uma táctica e uma prática ajustadas à realidade. O marxismo não é a repetição acrítica de análises de realidades históricas ultrapassadas. O marxismo é a aplicação das ferramentas científicas, nomeadamente o materialismo dialético e o materialismo histórico, à realidade concreta, infraestrutural e superestrutural, que hoje se nos depara.

 

 

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