Sobre os números do défice e a posição da esquerda reformista

31/3/2017

 

 

1 - Ao longo dos últimos quase dez anos, desde a falência do Lehman Brothers, que a esquerda reformista, com base num keynesianismo que acha ser profundamente revolucionário, reclama que o Estado da burguesia faça uma gestão expansionista da mesma crise. Pedem ao Estado que, investindo pesadamente o dinheiro que roubou por via do fisco aos trabalhadores, compense com as suas reservas a falta de capitais da burguesia, criando empregos, dê apoios assistencialistas, e em suma impeça as convulsões sociais. Explicando como espoliar os trabalhadores sem que estes se dêem conta, a esquerda reformista diz há 10 anos aos capitalistas que dá demasiado nas vistas cortar os salários, despedir empregados, despejá-los das suas casas, expulsar os seus filhos das escolas, e deixá-los morrer à porta do hospital numa fila de espera. Melhor é pegar no que já está roubado e entesourado pelo fisco e dá-lo aos patrões arruinados, seja directamente, seja por contratos associados a obras de regime, a empreendimentos de reindustrialização, ou à redinamização da economia nacional (que continuaria a ser uma economia capitalista). Com isto os trabalhadores receberiam umas migalhas no fim, e não viriam a radicalizar-se politicamente.

 

2 - Os Governos capitalistas, perante uma esquerda desta ordem, que em vez de mobilizar os trabalhadores para o derrube de um modo de produção anárquico e irracional que a cada passo entra em crises que ameaçam lançá-los na miséria e liquidar a vida no planeta, se dedica a tentar explicar aos capitalistas como gerir esse mesmo modo de produção (quem se esqueceu de Mariana Mortágua a dizer que só a esquerda radical parece saber salvar o capitalismo?), naturalmente, riem-se a bandeiras despregadas e ignoram olimpicamente o que lhes é proposto. Afinal de contas, para que precisariam eles de seguir esse modelo de investimento público, de endividamento dos Estados, de distribuição de migalhas pelos trabalhadores, se esses mesmos trabalhadores não têm qualquer organização combativa, nem uma esquerda disposta a organizá-los para tê-la?

 

3 - Os Governos capitalistas conseguiram, perante isto, fazer o pior de dois mundos: injectar quantidades imensas de dinheiro roubado pelo fisco nos grandes grupos económicos, ao mesmo tempo que desenvolvia uma política de corte directo e indirecto dos salários, seja pelo agravamento fiscal, seja pelo desinvestimento público, seja pela redução pura e simples das remunerações. Perante isso, a esquerda desfilou rua abaixo e fez menos de um décimo das greves gerais que ocorreram, por exemplo, na Grécia. Isto quando foi autorizada a fazê-lo: quando lhe vedaram a passagem na ponte 25 de Abril, essa mesma esquerda encolheu-se em bloco.

 

4 - Chegado o Governo da Geringonça, e quando está contabilizada a execução orçamental de 2016, a política de contenção orçamental prosseguiu tal como até aqui, com uma queda no investimento público de cerca de 32% em apenas um ano (!). Ao mesmo tempo que isto acontecia, e apesar de o salário mínimo ser hoje superior ao de 2015 em cerca de 1,73 euros/dia (uma fortuna!), o Governo da Geringonça encheu de dinheiro público o buraco da gestão privada no Banif, e aceitou, de joelho no chão, a imposição imperial da UE de transformar o processo de recapitalização da CGD numa oportunidade de negócio para agiotas privados, que receberão juros de mais de 10% pelo dinheiro que estão a emprestar. Ou seja, o Governo da Geringonça não só reduziu enormemente o investimento público, continuando a política de contenção orçamental que vinha de Passos Coelho e de Sócrates, como continuou a garantir negócios chorudos à banca portuguesa e à finança internacional.

 

5 - Perante isto, a mesma esquerda keynesiana que reclama investimento público há 10 anos, que pôs o Governo da Geringonça em andamento, e que aprovou o Orçamento de Estado em questão, o que fez? Anunciou o fim do apoio ao Governo? Mobilizou os trabalhadores para a rua, exigindo o cumprimento de uma política de esquerda? Propôs que se faça uma greve geral para forçar o PS a romper com o rumo de submissão que vem de Passos Coelho? Ou limitou-se a críticas fátuas em encontros de militantes, ou em notas envergonhadas na imprensa partidária? A resposta é absolutamente evidente. A recente convocatória de uma manifestação de trabalhadores jovens a meio da semana e em pleno horário de trabalho, aliás, é uma prova cabal de que o movimento sindical que o reformismo hegemoniza não tem qualquer a intenção de resolver os problemas que se deparam ao povo, mas apenas de dar provas de vida a uma militância que se contenta com pouco.

 

6 - A capitulação é, portanto, absoluta e em toda a linha. O reformismo não só não pretende desmascarar o capitalismo como, pelo contrário, é ele mesmo denunciado todos os dias na sua política de conciliação de classes e de rendição à política de recuperação capitalista. Não há o que esperar do reformismo. Urge constituir e alargar uma forte organização popular que tenha o socialismo como horizonte e a combatividade revolucionária das massas como objectivo imediato.

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